terça-feira, 3 de junho de 2008

Crime na Pampulha







O local é Belo Horizonte.




O tempo é o final de 2007.




Em um universo paralelo onde a corrupção espiritual e o crime são comuns, a nossa historia tem tempo e espaço.











Fim de ano. Como era de esperar Almeida iria ficar de plantão na delegacia do caiçara. Junto com ele estavam Juvenal e Renato. Juvenal era um negróide de meia idade, ligeiramente acima do peso, que já tinha sofrido três atentados contra sua vida, todos por colegas de profissão, fruto das inúmeras denuncias anônimas. Renato era um caucasiano com seus 23 anos, recém formado que, ainda, acreditava no sistema.
Era sempre a mesma turma quem ficava de plantão, Renato amargava sua segunda vez. Era bom ele se acostumar.

Por volta das 23h a agitação já começava a tomar conta da Catalão. O transito começava a ficar lento pelo grande numero de veículos que iriam levar os felizardos, a assistirem o lindo show de fogos da Pampulha. Era uma das maiores festas populares de BH.

Almeida via tudo aquilo da janela do segundo andar, da estreita delegacia e suspirava lentamente. Abriu como se fosse um ritual Zen o maço de cigarro. Cheirou o maço, em uma inspirada profunda. Retirou o lacre. Retirou a parte de cima do plástico. Bateu o maço contra o indicador. Pegou o cigarro mais a esquerda. Cheirou. Colocou na boca e o acendeu.
O telefone não parava de tocar. O café só não era pior que o tiro que tomara e que lhe rendera uma fratura exposta. Pensava no tédio pelas horas a fio a serem cumpridas. Suspirara de novo. Mandou Renato tirar o ultimo telefone do gancho. Agora só o grito arritmico dos presos dava a lembrança de estarem em uma delegacia.

A angustia começava a ser um inseto sem limite. Olhou para Juvenal, que com os pés sobre a mesa, asssistia ao show de Ivete Sangalo com a mão dentro da calca. E Renato que lia o jornal Aqui pela terceira vez.

"Renato! 'Bora dar uma volta" disse retirando a jaqueta de couro da cadeira de madeira e jogando-a sobre o corpo. "você segura as pontas ai Juvenal?"

"Beleza, beleza." respondeu Renato ainda com os olhos fixos na TV de 14' do distrito.

Andar pela Catalão foi fácil. Com a sirene ligada e alguns tapas na porta do lado de fora, as pessoas lentamente iam abrindo passagem. Avançavam lenta, mas constantemente em direção a Otacílio Negrão de Lima.

Almeida acendia outro cigarro. O ar frio da Pampulha o inspirava. Um agente da BHTRANS controlava o transito, da forma usual: descontrolada.

Várias festas eclodiam na Pampulha ao mesmo tempo. Drogas sintéticas, injetáveis, inaláveis e bebidas aconteciam de forma indiscriminada. Era inviável cuidar de todos os lugares, mesmo porque a polícia era conivente com a maioria delas. O que Almeida fazia era trabalhar por amostragem, chegando a um lugar e explorando-o ao máximo.
O barulho ritmado e intenso do Techno das mansões invadia a Avenida, contrastando com a balbúrdia desconexa das milhares de pessoas que disputavam espaço com a viatura em que Almeida se encontrava.

Almeida olhava com olhos investigativos toda a cena, procurando sinais de problema. Acendendo um cigarro no outro, algo lhe chamou a atenção. Com a visão periférica algo, dentro de uma das festas das mansões estava lhe fitando.

A mansão tinha uma espécie de Mezanino. Uma plataforma de madeira deixava alguns convidados acima do nível do muro, facilitando a visualização dos mesmos ao nível da rua.

Almeida pediu que Renato parasse o carro.

"Eu conheço aquele cara..."



Sentado no meio de camisas regatas, pólos e malhas um homem de meia idade se destacava pela paletó cinza claro combinando com a calça.

Almeida fez um leve movimento com a cabeça. Rodolfo fez o mesmo. Fazia alguns anos que eles se conheciam, mas só recentemente eles haviam se aproximado um do outro. Rodolfo era um policial federal do Departamento de Crimes Cibernéticos. Sua honestidade fazia parte da média da polícia federal, ou seja, estava bem acima da polícia civil. Rodolfo sempre fora uma pessoa suficientemente simpática e com limites bem claros para alguns tipos de envolvimento pessoal. Almeida já se acostumara com isso, haviam poucos policiais civis honestos (talvez os que estavam de plantão esta noite) e os policiais federais tinham poucos desonestos entre os seus (provavelmente os que estavam de plantão esta noite). Era assim que Almeida entendia a sua relação com seus colegas da outra Polícia, como vergonhosa e embaraçosa para si.

Almeida e Renato iniciaram uma caminhada decidida em direção a portaria da mansão. Inicialmente os leões de chacará não haviam deixado a dupla passar, mas ao descobrirem que eram policiais civis, deixaram que passassem. Mais vergonha para Almeida, mais uma vez...

“E aí Rodolfo?” Disse acendendo o cigarro no enfeite de mesa central. “Curtindo a noite?”
“Aproveitando o ano novo...” disse olhando para o lado.
“Este é Renato.” Disse soltando fumaça no ar. “Ele é de confiança”
“Hm hum.” Disse Rodolfo com ar de pouca crença.
“Como vai?”
“Tranquilo?” meras formalidades na forma de palavras vazias, foram emitidas por ambos os lados. No final, o empate foi um bom resultado.

“A festinha está animada aqui hoje, hein?!” Disse Almeida acabando de contemplar o ambiente.

“Verdade.” Algo no olhar de Rodolfo, contudo, mostrava que suas palavras não diziam tudo. Seu olhar estava fixo, como o de um falcão que almeja cruzar, mas não quer demonstrar isto para sua presa. Um olhar tímido, mas treinado.

Um olhar de detetive. Um olhar de trabalho? Algo lhe preocupou...

“De plantão hoje, Rodolfo?”

“Eu? Não... acompanhando um amigo.” Desmentiu, girando os gelos dentro do copo.

Aliviado, Almeida acompanhou aquele olhar. Como que navegando íris adentro de seu colega, interpretou cada sinal, cada pessoa. A música alta que emitia freneticamente a batida embalando o seu público foi interrompida. Tudo era uma cena do crime e todos, criminosos.

Dois indivíduos chamaram a atenção. Ambos vestiam corriqueiras roupas de festa do reveillon. Um deles o mais franzino utilizava bermuda e blusa de linho branco, o outro utilizava calça jeans com uma camisa de algodão branco e larga, além de óculos escuros estilo aviador. Imediatamente, como era para ser, tudo voltou a seu ritmo, se movimento e seus sons.

“Sei...”

“10”... a contagem para a passagem de ano, de 2007 para 2008 começou.
“9”
“8”
Almeida tragou profunda e lentamente seu cigarro, apagando-o no cinzeiro a sua frente.
“6”
Meteu a mão por dentro da blusa, encontrando Raphaella e Marcela, cada um em seu canto, como que adormecidas, aguardando serem convocadas para ação.
“3”
“2”
Gritos de feliz ano novo se ouviram por todo o salão. Urros de alegrias, ao mesmo tempo em que os foguetes começavam a estourar no céu. Várias cores e a fumaça da queima já começava a atrapalhar ligeiramente a visão.









“Cadê ele?”Perguntou Almeida.

Havia desaparecido. Almeida e Rodolfo levantaram-se imediatamente e foram em direção a sua última posição.

Encontraram o corpo, do calça jeans, aparentemente ofendido por algum pérfuro-cortante. A perfuração obviamente não era de arma de fogo ou faca.. era como se fosse uma lança ou algo assim...

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